Sérgio Abranches: Regime político vai sofrer ruptura e Judiciário não é saída para crise
Em um artigo publicado em 1988, Sérgio Abranches cunhou o termo presidencialismo de coalizão para nomear o sistema político-partidário brasileiro.
Abranches argumentou que, em um cenário com um grande número de partidos e em que nenhum deles obtém maioria no Congresso, o presidente precisa negociar com forças políticas muito heterogêneas e sem enraizamento ideológico para conseguir governar. A distribuição de cargos e emendas parlamentares passam a ser as principais armas à disposição do chefe do Executivo.
No livro “Presidencialismo de Coalizão (https://www.companhiadasletras.com.br/9788535931556-presidencialismo-de-coalizao-7396/p)”, lançado em 2018, ele analisa a evolução do regime político do país desde a Constituição de 1988, análise que agora alcança, com a publicação de uma edição revista e ampliada da obra, os governos Jair Bolsonaro e Lula 3.
Neste episódio, Abranches discute os contornos da crise atual do sistema político-partidário brasileiro, indicando uma ruptura nas eleições de 2018 e o aprofundamento da crise em 2022.
O autor discute o crescimento da instabilidade nas relações entre a Presidência e o Congresso desde o impeachment de Dilma Rousseff —ele diz que, se antes as coalizões eram móveis, elas se tornaram líquidas— e o risco de o país ficar ingovernável sem um redenho das instituições e do próprio funcionamento da sua democracia.
Abranches também aborda o que chama de mentalidade da casa-grande entranhada na sociedade brasileira e do pêndulo entre democracia e autoritarismo que marca a história do país, temas que ele em outro livro recém-lançado, “A Terceira Margem do Ipiranga (https://www.companhiadasletras.com.br/9788535946901-a-terceira-margem-do-ipiranga-10924/p)”.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini (https://www1.folha.uol.com.br/autores/eduardo-sombini.shtml)
Edição de som: Jéssica Cruz
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3 Oct 2026
Letícia Cesarino: Big techs aceleram radicalização intoxicando fantasia e imaginação
É comum que se diga que o Discord e outras plataformas não são mais que ferramentas tecnológicas, como um carro: se um motorista matar alguém atropelado, a culpa é de quem dirige, não do veículo, que não passaria de um meio de transporte.
Para a antropóloga Letícia Cesarino, essa comparação é absurda. O que as big techs oferecem, ela diz, são ambientes, cada vez mais tóxicos, que moldam formas de socialização e identidades —e nesses espaços, crianças e adolescentes, particularmente vulneráveis, estão sendo seduzidos pelo extremismo.
Em "Ecologias de Crise (https://www.ubueditora.com.br/ecologias-crise.html)", a autora investiga como as plataformas digitais impulsionam espirais de radicalização. O livro discute o papel delas desde o recrutamento de novos membros por comunidades extremistas até a realização de atos de violência.
A ideia de ecologia de crise se inspira na obra do antropólogo Gregory Bateson, um dos grandes nomes da teoria cibernética, e concebe o extremismo como uma teia de que participam o modelo de negócio das big techs, o funcionamento dos algoritmos e as trajetórias individuais das pessoas que se radicalizam.
Neste episódio, a pesquisadora explica o que a internet plataformizada contemporânea tem a ver com a ascensão de um extremismo que não quer mais implodir uma sociedade vista como degenerada para criar outra das suas cinzas: em muitos casos atuais, o horizonte é só acelerar o fim e produzir ruínas —um cenário de violência pela violência.
Cesarino é professora do Departamento de Antropologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e foi assessora do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania em 2023 e 2024. Em 2022, publicou "O Mundo do Avesso".
Produção e apresentação: Eduardo Sombini (https://www1.folha.uol.com.br/autores/eduardo-sombini.shtml)
Edição de som: Jéssica Cruz
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19 Sept 2026
André Singer: Esquerda deve continuar em frente democrática sem deixar de ser esquerda
Resistir à onda reacionária que avança no Brasil e no mundo, diz o cientista político André Singer, depende de novas formas de organização de classe. Sem o engajamento político dos trabalhadores, o regime democrático tende a se esvaziar e a esfera pública, se dissolver.
Essa interpretação é desenvolvida no recém-lançado "Impasse (https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535944396/impasse)", que propõe que a coalizão formada ao redor de Lula (PT) na última eleição vive uma contradição: a construção de uma frente democrática ampla foi indispensável, mas, por reunir grupos sociais com interesses antagônicos, pode se fraturar.
Do lado de cima, estão elites econômicas que defendem um programa de austeridade fiscal e diminuição do tamanho do Estado. Do lado de baixo, trabalhadores que esperavam uma melhoria nas condições de vida como nos primeiros mandatos de Lula, o que demanda mais investimento social, e se frustam com os resultados do governo.
Para Singer, o melhor que a esquerda pode fazer nessa conjuntura é se opor à política econômica neoliberal —defendendo a revisão do arcabouço fiscal e a queda dos juros, por exemplo— sem deixar a frente democrática.
Nesta entrevista, o pesquisador também aborda os desdobramentos desse impasse na campanha eleitoral, como a oscilação do grupo com renda familiar de 2 a 5 salários mínimos entre Lula e o Flávio Bolsonaro (PL).
André Singer é professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e foi porta-voz e secretário de imprensa da Presidência da República entre 2003 e 2007, nos primeiros mandatos de Lula. Ele é autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Lulismo", de 2012, uma das obras mais influentes sobre os governos do PT e as transformações da base social do partido.
Produção e apresentação: Eduardo Sombini (https://www1.folha.uol.com.br/autores/eduardo-sombini.shtml)
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