NO TEMPO DE EU MENINO
Crônicas da infância
“No tempo de eu menino, livro de Odenildo Sena que o leitor agora tem na versão podcast, é um convite que o autor nos faz para um reencontro com esse tipo de felicidade. As crônicas que compõem o volume nos contam histórias de sua infância vivida no bairro de São Raimundo – não o de hoje, mas um bairro de um tipo como atualmente quase já não existe. Embora desaparecido no tempo, o bairro retorna nas cores da memória, com um pouco de nostalgia e muito lirismo.”
(Allison Leão, doutor em Literatura e professor da UEA)
Versão e-book: amazon.com.br
Nesses dias, andei a me encharcar de Paris. Uma cadeia de acontecimentos levou-me a esse estado. O mote foi a leitura de algumas cartas do escritor argentino Julio Cortázar publicadas na revista Piauí, com uma envolvente apresentação do crítico David Arrigucci Jr. Já disse antes que gosto de ler cartas? Em geral são textos reveladores daqueles raros momentos de descuido em que a espontaneidade sufoca a razão e o sentimento abre espaço para a pureza das palavras. Pois essas virtudes estão lá nas missivas de Cortázar endereçadas aos seus entes queridos deixados em Buenos Aires. Só que ele não escreve de qualquer lugar, mas de Paris, por quem se apaixonou, ora vejam, sem a menor das resistências.
6 Oct 2021
Sessões contínuas
Ser bombonzeiro do cine Ideal tinha suas vantagens. Assistia a tudo quanto era filme.
Cestinha de vime pendurada no pescoço, balançava a caixinha de Mentex, para chamar atenção dos fregueses, e ia descarregando as diversas variedades de bombons diligentemente arrumadas nos doze compartimentos. Na verdade, diga-se de passagem, tanto vendia quanto consumia. Sonho de Valsa, a grande novidade da ocasião, era o meu preferido. Tanto que estabelecia sempre uma reserva de mercado, ou melhor, de consumo, no cantinho, dificultando a visibilidade por parte dos fregueses. Na hora de prestar contas, o que sempre acontecia logo após o apagar das luzes e o início do filme, em geral a contabilidade não batia em meu favor. O suposto apurado eu já havia consumido por antecipação. Não raras vezes, ainda ficava devendo uma pontinha para quitar no dia seguinte. Praticava o que os economistas do FMI chamariam, anos depois, de “rolar a dívida”. Não dava muita bola para o proveito financeiro. O ofício era apenas o grande pretexto que me abria as portas para conviver mais tempo com os muitos heróis habitantes da enorme e panorâmica tela do cine Ideal.
16 Sept 2021
A voz da Colina
Para a meninada, entretanto, sedenta de novidades e aventuras, o anúncio que servia de mote para em poucos minutos estarmos reunidos era o que dava conta de que uma boiada a caminho do matadouro, no vizinho bairro da Glória, havia fugido e se espalhara pelo bairro. Alegria incontida, porque sabíamos que o resto do dia nos reservava aventuras só comparáveis às vividas por nossos heróis nas telas do nosso Cinema Paradiso.
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