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About O meu universo é um casulo
Felipe Simão é um homem que viveu muito tempo recluso em seu quarto, neste livro ele traz poesias que recontam as fantasias que ele criava para si mesmo nos anos de reclusão. Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.
- Publisher
- Felipe Simão
- Category
- arts · arts · music
- Language
- pt
- Explicit
- No
- First episode
- 3 Aug 2024
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- 3 Aug 2024
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3 Aug 2024
18 - Traços de giz
Você pensou que eu fosse alguém, eu sou só o pedaço dum homem que se partiu e não morreu Se o escuro fosse um fragmento de papel roxo e os seus lábios fossem traços de giz branco, inebriantes, tomassem conta da minha boca e me impedissem de ser tão franco, tão cruel comigo mesmo, quem sabe eu fosse mais do que um sopro pode carregar Se a minha cama fosse o fundo do poço e você fosse a minha corda, talvez seria menos difícil levantar todas as manhãs; mas por que você quer erguer essa carcaça quase morta? Com tantos apartamentos, por que bater à minha porta? Se eu fosse mais que um amontoado caótico de gelo, você poderia mergulhar em mim, nadar sem ter bordas, e não se preocupar com o fim Se eu ainda tivesse as minhas asas de anjo, fosse feliz como quando eu era criança e tinha um redemoinho no cabelo, eu saciaria seu desejo voar, quiçá teria contigo um filho que não gosta de posar para fotos Se eu não fosse um miserável te amaria profundamente e não tentaria me afastar de ti, te mandar embora; se não fosse mais que pó, agora estaríamos juntos, entrelaçados num abraço nu que só se desmancharia no sol nascente, um daqueles com os mais bonitos raios que não iluminam uma sessão de fotos no Instagram; seríamos o instante desentercedido de passado ou futuro, seríamos na infinitude momentânea, a pura sensação de viver Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
17 - Um rosto
“Não tenhas medo de mim”, é o que tento dizer com os meus olhos, mas as suas retinas sempre me escapam e as minhas palavras se despedaçam antes de saírem pelos lábios Eu ando pelas ruas procurando a cor das suas pupilas, mas elas só refletem o asfalto, pra você, eu sou apenas o fantasma de outros homens, eu queria que você realmente pudesse me ver, nem amigo, nem amante, nem efêmero, nem importante, só outro humano, alguém perto de você Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
16 - A poesia é coisa do campo
Na cidade há muitos carros, muitas cores, luzes, outdoors, todo aquele barulho, toda aquela gente apressada, na cidade tudo é magnífico e caótico, não sobra tempo para a poesia, a poesia é coisa do campo, de quem vê passar o dia, é para quem respira devagar e não sente cheiro de maresia Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
15 - Quando os pássaros cantam na primavera
Quando eu ouço os pássaros chilreando para anunciar a primavera, eu me lembro do teu rosto, tua voz acariciando meus ouvidos, vinte mil poemas perdidos, a cada segundo do nosso enlaço, mas o destino é uma feiticeira e ela soprou seu laço, foste embora numa manhã de terça-feira, que os anos já levaram para bem longe, nas profundezas da minha solidão, mas às vezes parece que eu consigo escutar a tua alma cantando dentro do meu coração Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
14 - Teu horizonte
Se já não tivesses a tua ilha, eu gostaria de ser teu horizonte, abrir os braços e deixar o meu peito ser o teu mar, que te afundasses em mim sem te afogar, que procurasses meu confim até não poderes mais nadar Queria te fazer feliz no vai-e-vem das ondas, ouvir o teu suspiro de alegria ao te jogares na beira da praia, queria te ver dormir com o canto dos meus pássaros, e nunca te deixar esquecer o gosto do meu sal Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
13 - Geleiras norueguesas
Se eu pudesse escolher um lugar para morrer, nas geleiras da Noruega, nas areias deserto do Atacama, ou nas areias do caribe, diante do mar aberto; me jogaria com total entrega, me esqueceria dos desígnios da cama, dispensaria o errado e o certo, chegado o dia, morreria de alegria, detentor da certeza de todo esplendor da natureza Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
12 - Caduquice
Quando a caduquice vier, não quero mais ter exigências e mastigar rabujos como um ancião qualquer; quero nos meus devaneios repletos de eloquências perder todo o critério, pois no dia em que eu for bem velho e não puder mais quebrar ossos de frango com os dentes, quero que a vida não seja mais feita de repentes, que se instaure a calmaria, que os dias passem como versos cantarolados duma doce poesia; quero uma casa cheia de livros mofados pela maresia; serão dias de descanso, uma cadeira de balanço para quem não aguenta mais, sem mentiras, sem intrigas, sem ranço, que eu finalmente encontre a paz Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
11 - Nem tudo
Nem todas as poses são para fotos, nem todos os amores são para vida, nem todas as dores são para remédios, nem todos os tédios são para televisão, Nem todas as flores são de primavera, nem todos sonhos de verão, nem todos os amores morrem no outono, nem todo frio é de inverno e nem todo inferno é fruto da nossa ingratidão Nem tudo na vida, que é finita, um mero diapasão, vai durar, tudo, na verdade, é efêmero, as delícias e as dores, os amigos e os amores, os pomares e as flores, a gente planta para um dia se acabar Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
10 - Caroço
Eu plantei uma semente na minha nuca, esse caroço, no meu pescoço fez crescer mais que nunca, crescia e não havia buraco, caçamba, caçapa ou sinuca, não havia arapuca, eu era areia e uma vez furado o saco, me expandia pelo universo como cada letra que expande meu verso; minha mente explodiu sem regresso, eu crescia e crescia, passava o teto, o forro, o telhado, as pedras do Corcovado, passava o Cristo Redentor, crescia como a puta que para mim se despia sem pudor, passei a atmosfera, passei das estrelas, dos outros planetas, asteroides e cometas, mais do que o homem conhecer pudera; cresci e fui muito além daquilo que tinha de pior velejei até encontrar o meu fim, morri cremado abraçando o sol de outra galáxia Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
9 - Aquilo lá no céu
Não era um pássaro, não era um avião, não era um super-herói, era um homem sem motor, plumado de sonhos, e pelado de razão, tão consumido pelo rancor que ficou mais leve que o ar; aquilo que não mata dói e o que não te destrói, te faz flutuar Ressecado por dentro como se só bebesse água do mar, às portas do Paraíso negado, recusava-se a descer e pelas nuvens ousava velejar; sem morrer, sem ser arrebatado, era menos que homem, uma carcaça navegante, uma sombra de céu desimportante; mesmo sem vida, não estava necrosado, mesmo nu, não estava despido, tinha flechas de paixão e não era desejado, tinha charme e não era aprumado, tinha voz e não era ouvido, por todos os cantos atacado, mas não ainda destruído, tinha fama e era desconhecido, tinha cama e não satisfazia a libido, era vazio de pleno, era divertido de tão sério, inquieto de tão sereno, enigmático de tão pouco misterioso, tinha boca e não beijava, um sexo que a outro não colava; sozinho de homens e mulheres, ficou com a companhia das nuvens, tornou-se amante da chuva e se sentia orgulhoso de ouvir seus trovões, gozava com seus raios, dissolvia-se no mar e deixava sua pele morta virar coral É uma fragata que não rouba peixes, mas pedaços de azul, a cada pontada de maior vigor, ele fica mais leve, indelével, vai sobrevoando como um esquilo voador, de canto em canto, tentando fugir da própria dor Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
8 - Penitente
Os olhos, cegos do mundo, afundam-se nas cavidades dum homem torto; só conseguem ver o absorto, a lembrança daquela mulher cheia de flerte, coberta de charme, encarnada de luxúria, a coisa mais bela já vista nua, se ela ainda fosse sua, “se ela ainda fosse minha”, “se ela ainda fosse minha”, repete com os dentes fazendo rinha, rastejando serpentoso pelo calçadão beija pedras portuguesas como se fossem os pés da sua rainha, engole a poeira do chão como se fosse favos de mel como se pelo favor dum prazer bel, no asfalto da rua São Clemente, ele deixasse de ser penitente e encontrasse o céu Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
7 - Sereia
Preciso mergulhar, me perder na imensidão do mar, mas o medo me impede de pular do cais; dizei-me vós, ó virgem proibida, sereia tingida de corais em todos os mares conhecida; dizei-me, minha sereia, o que eu seria? O que me espera na curva da baía? Quando chegará o momento do fim meu tormento? Quando terei um amor que dura mais que um dia? Um amor que não se deixa carcomer pela maresia; eu tive um sonho e nele você me dizia a verdade que nunca pude ver, eu conseguia, conseguia enxergar o sol depois da nuvem escura vencia a paúra e começava a viver Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
6 - Água
És na minha boca o mel, duas línguas se encontrando no céu, uma estória marcada no botaréu, que sustenta minhas paredes; és a água que mata minha sede, que me alaga, que lava a minha dor, afoga toda mágoa e me hidrata de amor Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
5 - Mi sonrisa
Es con esta sonrisa que me gusta verme, porque pasados todos estos años, pudo comprender que antes no me amaba, al menos no por entero, por el todo, y no se puede amar a sí mismo de otra manera, no tengas miedo de aquello que en ti encuentras, a final de cuentas, somos todos un conjunto indisociable de características, las más altruistas, las más individualistas, que se juzguen malas o buenas, son piedras que, sin distinción, se ponen lado a lado, surtidamiente, a cima y abajo Yo no soy solo un pedazo, soy un hombre constituido; la luna también tiene su mitad oscura y aún no deja de brillar, no puedo dejar que mi lado sombrío oculte mis emociones, tome cuenta de mi alma y no me dé vacaciones, apague mi sonrisa, y que esta sonrisa deje de iluminar otros corazones Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
4 - A porta
Na minha casa há uma porta que eu não posso abrir, por onde saiu um amor para que não mais pudesse encontrá-lo, fechou a porta à chave, fechou a cadeado; um amor de ciúmes enredado, desenganado fugiu, e eu fiquei como um gato miando para um inseto pousado no inalcançável teto; desilusão, disparate; caso essa paixão um dia me mate, antes de ir quero ver o que tem atrás dessa porta, uma vez a vida morta, eu só quero é sorrir Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
3 - Pablo Escobar
Necesito huir de este mundo, partir para un universo que sea mío, que sea creado por mí, en que yo sea su dios y este mundo se hará con mi pasión, con mi sabiduría, con mis sueños, mis deseos, pero también, con mi rabia, mi mal humor, mis hipocresías Ya que estoy condenado a vivir solo, a morir solo, mi único lujo se transformaría en ser dueño de mi propio universo, de mi propia cárcel como Pablo Escobar, comandar a mi sueño como Neptuno controla el mar Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
2 - Castelo de gelo
Construí uma fortaleza dentro de mim, com muros de pedra que parecem não ter fim, canhões, trombetas e flechas, guardas com sabres de marfim não há espiões, julietas, ou brechas e os disparos não são de festim Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.

3 Aug 2024
1 - Meu pequeno mundo
Entre as paredes do meu quarto eu vejo o mundo por inteiro, o seu relevo, as suas marcas, as suas cores, suas línguas, seu passado, seu presente e prevejo seu futuro Entre as paredes do meu quarto eu decido os rumos do destino seja da humanidade ou da minha vida; entre as paredes do meu quarto eu conheço a verdade não lida; entre as paredes do meu quarto eu escrevo, eu me descrevo, declamo, eu me amo, eu me odeio, enlouqueço e me esqueço, canto, danço, fico nu, entre as paredes do meu quarto sou um espetáculo sem plateia, sou piada sem riso, orgasmo sem gemido, filosofia sem discípulo livro sem leitor, sou bondade, maldade e dor, sou estória sem personagem, sou miragem, real e absurdo, sou aquele que penso e que existo, sou aquele de quem nunca desisto, aquele que me permito Entre as paredes do meu quarto, no silêncio que sou, posso me ouvir, profiro nomes de homens e mulheres, amo, desamo, traço paixões, traço os contornos das minhas imaginações; entre as paredes do meu quarto, eu me agito, eu grito, suspiro, eu tremo, eu treino, canso, descanso, alcanço e sozinho Entre as paredes do meu quarto eu penso e esqueço de viver Hosted on Acast. See acast.com/privacy (https://acast.com/privacy) for more information.
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