

Uma palavra no seu caminho
Luís M. Figueiredo Rodrigues
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- Episodes
- 6
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- Monthly
- Cadence
- 2020
- First episode
About Uma palavra no seu caminho
Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.
- Publisher
- Luís M. Figueiredo Rodrigues
- Category
- religion & spirituality
- Language
- pt
- Explicit
- No
- First episode
- 9 Jan 2020
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- 20 Sept 2026
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20 Sept 2026
XXV Tempo Comum - Homilia
O Senhor coloca hoje diante de nós uma parábola que, em termos de gestão, parece não fazer grande sentido. Um proprietário contrata trabalhadores para a sua vinha em diferentes horas do dia: uns de manhã cedo, outros ao meio-dia, outros já ao fim da tarde. E, na hora de pagar, dá a todos o mesmo salário. À nossa lógica, isto parece injusto: trabalho diferente, pagamento igual. Mas a primeira leitura ajuda-nos a entrar no coração da parábola: «Tanto como o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos». Eis o desafio: entrar no Reino de Deus não significa apenas fazer determinadas coisas; significa aprender a ver, julgar e interpretar a realidade com os critérios de Deus. A conversão cristã é também conversão da mentalidade. A primeira coisa que a parábola nos revela é que Deus chama todos, seja a que hora for. E chama também aqueles que ninguém chamou. Quando o proprietário pergunta aos últimos porque ficaram todo o dia sem trabalhar, eles respondem: «Porque ninguém nos contratou». Quantos estão hoje afastados de Deus porque ninguém os convidou, ninguém os considerou, ninguém lhes mostrou que também para eles há um lugar na vinha do Senhor? Depois, a parábola mostra-nos que a salvação não é um salário que conquistamos; é um dom. Na nossa lógica, quem trabalhou mais deveria receber mais. Mas no Reino de Deus ninguém pode dizer que mereceu a salvação. Cristo deu-nos, na cruz, aquilo que não poderíamos conquistar pelas nossas próprias forças. A salvação é graça, é presente, é amor oferecido gratuitamente. Por isso, os trabalhadores da primeira hora não recebem menos porque os últimos recebem o mesmo. O problema está no olhar com que veem os outros. Também nós podemos pensar: «Sempre fui cristão, sempre fui à Missa, cumpri os mandamentos, procurei fazer tudo bem; e agora aquele que viveu longe de Deus converte-se no fim e recebe a mesma salvação?» Sim. Porque Deus quer salvar todos. Aqui está talvez o ponto mais exigente para nós, cristãos de longa data: podemos ser cristãos nas práticas e ainda não o ser inteiramente no coração. Podemos cumprir tudo e conservar uma mentalidade distante da de Deus. As práticas, as regras e os mandamentos são importantes, mas não são um fim em si mesmos; são mediações para conhecermos, saborearmos e acolhermos o amor de Deus. Se os trabalhadores da primeira hora tivessem vivido o dia com gratidão, ter-se-iam alegrado com a chegada dos últimos. Teriam pensado: «Que bom que também eles descobriram a alegria de estar na vinha do Senhor!» É esta a atitude de quem compreendeu o Evangelho: agradecer por ter chegado cedo e alegrar-se por quem chega depois. Vale, então, a pena perguntarmo-nos: porque somos cristãos? Por obrigação? Por medo? Para “ganhar” o céu? Se for apenas isso, a fé torna-se pesada e triste. Mas, se somos cristãos porque descobrimos quanto Deus é bom, quanto nos ama, nos perdoa e nos chama à sua presença, então tudo muda. A prática cristã deixa de ser um fardo e torna-se resposta agradecida. E quem vive assim não julga quem regressa. Alegra-se. Se Deus perdoa, quem somos nós para não perdoar? Se Deus acolhe, quem somos nós para fechar a porta? Peçamos, por isso, ao Senhor a graça de nos deixarmos converter não apenas nas ações, mas também no coração e na mentalidade. E agradeçamos por estarmos na sua vinha, seja qual for a hora a que chegámos. Quanto mais descobrirmos a alegria de estar com Deus, mais felizes ficaremos por cada pessoa que encontra, mesmo no último instante, esse mesmo amor que nós já tivemos a graça de conhecer.

30 Aug 2026
XXII Tempo Comum - Homilia
O Evangelho que acabámos de escutar é, no mínimo, embaraçoso para São Pedro. Jesus dá-lhe uma repreensão duríssima: «Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim ocasião de escândalo». E tudo porque Pedro, aparentemente por carinho, não queria aceitar que Jesus tivesse de sofrer. Jesus começava a preparar os discípulos para a sua paixão, morte e ressurreição; Pedro reage segundo os critérios humanos. E Jesus explica-lhe onde está o erro: «Tu não tens em vista as coisas de Deus, mas as dos homens». Aqui aparece uma tensão que conhecemos bem: a diferença entre os critérios de Deus e os critérios do mundo. Em consciência, percebemos muitas vezes o que seria justo, honesto, evangélico; mas o ambiente em que vivemos empurra-nos noutra direção. E, por vezes, cansamo-nos. Jeremias exprime esse cansaço na primeira leitura: «Não falarei mais no seu nome». Talvez também nós já tenhamos pensado: para quê esforçar-me por ser justo, por ser fiel, por viver segundo o Evangelho, se parece que nada muda? Mas Jeremias acrescenta: «Havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos; procurei contê-lo, mas não pude». Também em nós existe este fogo: é a graça de Deus derramada sobre cada um de nós, que nos chama, nos inquieta e nos transforma. É por isso que regressamos à Eucaristia, domingo após domingo. Não porque seja apenas um rito de uma hora, mas porque ela ilumina e fortalece a nossa vida. São Paulo diz-nos: «Oferecei-vos a vós mesmos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus». E talvez esta frase nos ajude a compreender melhor o que dizemos na Missa: «Orai, irmãos, para que o meu e vosso sacrifício seja aceite por Deus Pai todo-poderoso». Aqui, sacrifício não significa simplesmente algo que custa ou faz sofrer. Significa oferta, entrega. Na Eucaristia, Deus oferece-se por nós; em Cristo, dá-se inteiramente, morre e ressuscita por nós. E nós aprendemos essa mesma gramática da dádiva: Deus entrega-se a nós, e nós entregamo-nos a Deus. É então que compreendemos São Paulo: «Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para saberdes discernir a vontade de Deus». A Eucaristia não é apenas um rito celebrado; é uma vida oferecida. Às vezes ouvimos: «A Missa não me diz nada». E eu perguntaria: mas tu, o que dizes à Missa? O que levas? O que entregas? Estás apenas a assistir, como quem está num teatro, ou estás verdadeiramente a participar? Em cada Eucaristia estamos, de certo modo, a treinar para nos oferecermos a Deus e aos outros. Por isso Jesus pode dizer: «Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me». Parece que perder a vida é ficar com menos. Mas no Evangelho acontece o contrário: quanto mais me entrego a Deus, mais plenamente sou eu próprio; quanto mais me esvazio do egoísmo, mais humano me torno. É aqui que se mede também a verdade das nossas Missas. A Eucaristia tem valor na medida em que se prolonga na vida: na forma como me dou aos outros, na capacidade de não deixar ninguém tornar-se indiferente para mim, mesmo quando pensa de maneira diferente, mesmo quando o outro falhou. Eu aprendo isto com Jesus, porque estou com Ele, porque O escuto, porque O recebo. No salmo rezávamos: «A minha alma tem sede de vós, meu Deus». Todos trazemos esta sede de plenitude, de verdade, de beleza, de sentido. E como se sacia esta sede? Aprendendo com Jesus a dar de beber, isto é, a dar-nos. É quando nos oferecemos aos outros que aquele vazio começa a encher-se. Por isso compreendo quem diz que a Eucaristia é «uma seca». Mas tenho pena, porque talvez ainda não tenha descoberto tudo o que nela acontece. A Eucaristia é o lugar onde, através de gestos e palavras, nos reunimos com os irmãos e com Deus, para nos encontrarmos com o Senhor. A vida, muitas vezes, continua igual. Mas nós saímos diferentes. E, por isso, a vida pode ganhar outra leveza, outro sentido e outra verdade.

2 Aug 2026
XVIII Dom. Tempo Comum - Homilia
A homilia foi revista, estruturada e reduzida para cerca de 3868 caracteres, incluindo espaços. À primeira vista, as leituras de hoje parecem apresentar-nos um Deus pouco prudente. Na primeira leitura, o povo encontra-se no deserto, cansado, com fome e sede. E o Senhor diz: «Vinde à nascente das águas; vós que não tendes dinheiro, vinde comprar e comer. Vinde comprar, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite». Poderíamos quase pensar que Deus está a brincar com a necessidade daquele povo: manda-o comprar sem dinheiro, precisamente quando, no deserto, nada há para comprar. No Evangelho, a situação parece ainda mais desconcertante. Ao cair da tarde, os discípulos apercebem-se de que a multidão está num lugar deserto e não tem que comer. Propõem então uma solução sensata: «Manda embora as pessoas, para que vão às aldeias comprar alimento». É a prudência humana a funcionar: cada um procure resolver o seu problema. Mas Jesus responde: «Não precisam de se ir embora. Dai-lhes vós de comer». Os discípulos olham para o que têm e fazem as contas: apenas cinco pães e dois peixes. É manifestamente insuficiente. Contudo, Jesus manda sentar a multidão, toma aqueles poucos alimentos, recita a bênção, parte-os e entrega-os. E todos comem até ficarem saciados. Esta passagem ensina-nos que a matemática do Reino de Deus não coincide com a nossa. Nós contamos o que temos, o que fizemos, o que alcançámos. Deus convida-nos a perguntar de outro modo: que fez Ele através de nós? Que realizou com a nossa pobreza, as nossas limitações e os nossos escassos recursos? Quando olhamos apenas para nós, nunca chega. Nunca fizemos o suficiente, nunca temos tudo o que seria necessário, permanecemos longe do ideal que traçámos. Mas, quando contemplamos o que Deus realiza através da nossa pequenez, ficamos maravilhados. Os cinco pães e os dois peixes representam as nossas capacidades limitadas, os carismas recebidos, as pequenas virtudes que possuímos. Quando são colocados ao serviço dos outros e confiados à graça de Deus, adquirem uma fecundidade que não poderíamos prever. Aqui se toca o essencial do discipulado: acreditamos mais na graça de Deus ou nas nossas capacidades? Na hora da verdade, gostamos de ter o celeiro cheio, as contas certas e tudo sob controlo. Preferimos aquilo que podemos medir, pesar e garantir. Mas Jesus diz-nos: mais importante do que aquilo que fazes é aquilo que Eu faço através de ti. Muitas vezes duvidamos. Parece-nos pouco razoável, demasiado belo para ser verdade. No entanto, basta olhar com humildade para a própria vida. Quantas vezes, através das nossas limitações, Deus realizou maravilhas? Quantas vezes, porque tivemos a coragem de Lhe entregar o pouco que éramos e tínhamos, Ele fez muito? A grande fonte da nossa esperança não se encontra apenas nas grandes narrativas da Bíblia. Encontra-se também na nossa própria vida, quando a aprendemos a ler como história de salvação: uma vida amada, procurada e transformada por Deus. Somos frágeis, possuímos poucas qualidades e conhecemos bem as nossas insuficiências. Mas somos também filhos amados de Deus, em quem e através de quem Ele continua a realizar a sua obra. Por isso compreendemos as palavras de São Paulo: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada?» Nada disso nos separará. Não porque sejamos fortes, robustos ou poderosos, mas porque Deus nos ama e nos concede a sua graça. Há momentos em que tudo parece correr mal e desabar. Contudo, permanece dentro de nós uma paz que afirma: Deus continua a amar-te. E, se sabes que és amado por Ele, nenhuma dificuldade terá a última palavra. Façamos, então, um instante de silêncio. Recordemos todas as vezes em que entregámos a Deus o nosso pouco e Ele realizou o muito. Todas as vezes em que, através da nossa pobreza, humildade e disponibilidade, criou à nossa volta um verdadeiro banquete de vida, de esperança e de verdade.
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