Yoga sem filtros é o podcast do CPYOGA onde trazemos os ensinamentos práticos do Yoga para o dia a dia do estudante.
Desfazemos a ideia de que os textos clássicos do yoga são místicos ou distantes da prática contemporânea e mostramos como estes ensinamentos podem ser vividos, compreendidos e aplicados na prática regular — no tapete e fora dele.
Um podcast para quem quer aprofundar o yoga de forma simples, honesta e prática.
Sabemos bastante sobre aquilo que acontece durante a menopausa. Sabemos que a função ovárica se altera, que a produção hormonal muda e que a fertilidade termina.
A pergunta mais difícil é outra:
Porque acontece?
Porque deixa uma mulher de poder reproduzir-se quando poderá ainda viver trinta, quarenta ou mais anos?
Esta pergunta interessa muito para além da biologia. Obriga-nos a questionar uma ideia profundamente enraizada: a de que, quando termina a função reprodutiva, começa necessariamente uma espécie de declínio sem outra função ou significado.
A evolução conta uma história bastante mais interessante.
2 Oct 2026
Perimenopausa:uma transição, não uma avaria
Quando o corpo deixa de responder como estamos habituadas, é natural procurarmos uma explicação. E, hoje em dia, uma das primeiras que nos ocorre é quase sempre: “São as hormonas.”
É verdade que as alterações hormonais fazem parte da perimenopausa.
Mas isso não significa que o organismo esteja simplesmente “desequilibrado” ou que precise de regressar ao estado anterior.
A perimenopausa é uma transição fisiológica, marcada por alterações naturais na actividade hormonal e por diferentes formas de adaptação do organismo.
Reconhecer isto não significa, de forma alguma, desvalorizar os sintomas.
Como referimos acima, algumas mulheres passam por alterações significativas do sono, afrontamentos, mudanças de humor, hemorragias ou outros sintomas que podem justificar avaliação, acompanhamento e tratamento médico.
O importante é distinguir entre uma alteração fisiológica e um problema de saúde que necessita de atenção.
Nem tudo o que muda durante a perimenopausa é sinal de que alguma coisa está “avariada”.
18 Sept 2026
Depois dos 40 anos o corpo muda
Antes da menopausa existe uma transição
Uma das primeiras coisas que vale a pena compreender é que menopausa e perimenopausa não são a mesma coisa.
A menopausa corresponde ao momento em que se completaram doze meses sem menstruação.
Mas antes disso pode existir uma fase de transição que dura vários anos: a perimenopausa.
Durante esse período, a atividade dos ovários vai mudando e as hormonas sexuais podem oscilar bastante.
Por isso, a ideia popular de que “o estrogénio começa simplesmente a baixar” é demasiado simplista.
Para algumas mulheres, a primeira coisa evidente é o ciclo menstrual.
Para outras, é o sono.
Para outras ainda, aparecem mudanças de humor, afrontamentos, maior ansiedade, alterações da energia ou da recuperação física.
E muitas mulheres continuam a menstruar enquanto tudo isto começa a acontecer.
Talvez por isso esta fase cause alguma perplexidade.
O corpo começa a enviar sinais novos, mas a mulher ainda não tem a sensação que chegou à menopausa.
24 Jul 2026
A mente e os limites do conhecimento . Y.S Cap 1 Vers 17 e 18
Depois de definir o Yoga como a cessação das modificações da mente (citta-vṛtti-nirodha) e de apresentar a prática persistente (abhyāsa) e o desapego (vairāgya) como os meios fundamentais para esse fim, Patañjali introduz um dos temas centrais de toda a obra: o samādhi.
Nos sūtras I.17 e I.18, são descritas duas modalidades fundamentais de absorção meditativa: o samprajñāta samādhi e o asamprajñāta samādhi.
A distinção entre ambos é de enorme importância porque esclarece a natureza do caminho do Yoga.
O objectivo não consiste em produzir estados emocionais especiais, êxtases religiosos ou experiências místicas extraordinárias.
O que está em causa é o progressivo refinamento da actividade mental, tornando possível discernir com clareza aquilo que pertence à mente e aquilo que pertence à consciência pura.
10 Jul 2026
O desapego que liberta. Y.S Cap 1 - temporada 1 | Cap 1 vers 16
Quando se fala de desapego no Yoga, é frequente surgirem equívocos.
Uns associam-no a renúncia forçada, outros a indiferença emocional, outros ainda a uma espécie de afastamento do mundo.
O Yoga Sūtra não confirma nenhuma destas leituras simplistas.
Pelo contrário, oferece uma análise subtil, exigente e profundamente prática daquilo que significa, de facto, libertar-se.
Depois de apresentar, no Sūtra I.15, o desapego em relação aos objetos de prazer — sensoriais ou mais subtis — Patañjali dá um passo decisivo no Sūtra I.16. Aqui, o desapego deixa de incidir sobre “coisas” e passa a incidir sobre algo muito mais fundamental: as forças que estruturam toda a experiência.
É este movimento — silencioso, radical e transformador — que caracteriza o vairāgya supremo.
26 Jun 2026
O desapego Vairãgya. Y.S Cap 1 - temporada 1 | Cap 1 vers 15
No discurso contemporâneo sobre yoga, a palavra desapego é frequentemente mal compreendida.
Para uns, sugere fuga ao mundo; para outros, repressão do desejo ou negação da experiência humana.
No entanto, quando regressamos à fonte — o Yoga Sūtra — percebemos que vairāgya não é empobrecimento da vida, mas o seu refinamento mais profundo.
Este texto propõe uma leitura rigorosa e experiencial do conceito de vairāgya, articulando a tradição clássica do yoga com a realidade concreta do praticante moderno: alguém inserido na vida social, profissional e relacional, mas empenhado num caminho de lucidez, liberdade interior e estabilidade da consciência.
12 Jun 2026
A disciplina interior. Y.S Cap 1 - temporada 1 | Cap 1 vers 12 a 14
O problema central do Yoga, tal como formulado por Patañjali no Yoga Sutra, não é metafísico nem moral: é funcional.
A mente move-se. Oscila, reage, projeta, recorda, deseja e rejeita.
Esse movimento constante — as vṛttis — impede que a consciência permaneça estabelecida na sua própria natureza.
Depois de definir o Yoga como citta-vṛtti-nirodhaḥ (I.2), Patañjali apresenta, no sūtra I.12, os dois meios que tornam possível essa estabilização: abhyāsa e vairāgya. Nos sūtras I.13 e I.14, ele especifica o que entende por prática e quais as condições que a tornam eficaz.
Estes três sūtras formam um bloco conceptual coerente.
O primeiro apresenta o princípio.
O segundo define tecnicamente a prática.
O terceiro estabelece os critérios da sua maturação.
Juntos, constituem a arquitetura da disciplina mental no Yoga clássico.
29 May 2026
A memória que nos engana. Y.S Cap 1 - Temporada 1 | Cap 1 Vers 11
A memória é uma das funções mais discretas — e mais determinantes — da mente humana.
Sem memória não existe aprendizagem, continuidade da prática nem transmissão do conhecimento.
Não seria possível repetir um alinhamento, reconhecer um padrão respiratório ou amadurecer uma atitude interior se aquilo que foi vivido se apagasse a cada instante.
E, no entanto, no Yoga, a memória é também uma das formas mais eficazes de aprisionamento da mente.
Ela transporta o passado para o presente, interpreta a experiência actual à luz do que já foi vivido e leva-nos, muitas vezes, a confundir recordar com ver.
No Yoga Sutra, Patañjali inclui smṛti entre as cinco modificações fundamentais da mente (citta-vṛtti-s).
Esta inclusão não é acidental: a mente não sofre apenas por erro ou imaginação, mas também por repetição — e a repetição é, em larga medida, memória.
15 May 2026
O sono e a perceção da ausência Y.S Cap 1 — Temporada 1 | Cap 1 Vers 10
Quando falamos de prática de yoga, pensamos quase sempre em atenção, presença, clareza e lucidez. Raramente associamos o sono a este caminho. No entanto, Patañjali inclui o sono — nidrā — entre as cinco modificações fundamentais da mente (vṛttis). Esta inclusão não é acidental nem meramente descritiva. Revela uma compreensão subtil da mente humana: mesmo quando tudo parece cessar, algo continua a operar.
Durante o sono, os órgãos dos sentidos (jñānendriyas) e da ação (karmendriyas) encontram-se em repouso funcional. No entanto, o próprio facto de reconhecermos, ao despertar, que “dormimos bem” ou “dormimos mal” demonstra que houve experiência. Onde há memória, houve vivência mental. Isto basta para que o sono seja classificado como uma vṛtti.
1 May 2026
A imaginação na vida espiritual . Y.S Cap 1 — Temporada 1 | Cap 1 Vers 9
Vikalpa é a imaginação ou conceituação desprovida de um objeto real.
Isto não significa que a mente não se refira a “algo”, mas que esse algo não existe na realidade objetiva.
Quando lemos narrativas como “Os Contos de Fadas” ou “As Viagens de Gulliver”, encontramos descrições coerentes, linguagem correta e imagens mentalmente consistentes. No entanto, aquilo que é descrito não corresponde a nada que exista efetivamente no mundo.
Estas construções são exemplos clássicos de vikalpa: a mente cria uma realidade conceptual funcional, mas sem correspondência externa.
17 Apr 2026
Quando a mente erra e nem dá por isso. Y.S Cap 1 — Temporada 1 | Cap 1 Vers 8
No primeiro capítulo do Yoga Sūtra, Patañjali analisa o funcionamento da mente (citta) através das suas diferentes modificações (vṛttis).
Depois de definir o conhecimento correcto (pramāṇa), ele apresenta, no verso I.8, o segundo tipo de modificação mental: viparyaya, o conhecimento errado.
Este verso é fundamental para o praticante de yoga, porque revela que nem todo o conhecimento que temos é verdadeiro. Muitas vezes, a mente constrói interpretações que parecem correctas, mas que não correspondem à realidade. Reconhecer este mecanismo é um passo essencial no caminho do discernimento.
O texto e a tradução:
I.8 - viparyayo mithyā-jñānam atad-rūpa-pratiṣṭham
viparyayaḥ → erro
mithyā-jñānam → conhecimento errado
atad-rūpa → de forma não correspondente
pratiṣṭham → estabelecido, fundado
Tradução:
“Viparyaya é o conhecimento errado, estabelecido numa forma que não corresponde ao objecto real.”
Patañjali descreve aqui um tipo de conhecimento que parece válido, mas que não está fundado na realidade do objecto. Não se trata de ausência de conhecimento, mas de um conhecimento distorcido.
3 Apr 2026
como sabemos que algo é verdadeiro? Y.S Cap 1 — Temporada 1 | Cap 1 Vers 7
No caminho do Yoga, não basta praticar: é preciso compreender como a mente conhece, porque é através dela que percebemos o mundo — e também através dela que surgem ilusões, confusões e sofrimentos.
Patañjali é direto: existe conhecimento correcto, e esse conhecimento tem três raízes.
Texto e tradução
I.7 - Pratyakṣa–anumāna–āgamāḥ pramāṇāni
pratyakṣa - perceção direta
anumāna - inferência
āgamāḥ pramāṇāni - testemunho fidedigno
Tradução:
“O conhecimento correcto tem três formas: perceção direta, inferência e testemunho fidedigno.”
Esta pequena frase abre um tema essencial: como sabemos que algo é verdadeiro?
20 Mar 2026
Tudo o que surge na mente. Y. S. Cap 1 — Temporada 1 | Cap 1 Vers 6
Este sūtra marca uma transição importante no Yoga Sūtra.
O discurso deixa o plano das definições gerais e entra no domínio da observação rigorosa e funcional.
Antes de falar de controlo, apaziguamento ou transcendência, Patañjali estabelece uma exigência fundamental: é necessário compreender, com clareza, o que efectivamente acontece na mente.
No sūtra I.6, toda a experiência mental é organizada em cinco tipos de modificações — as vṛttis. Percepção correcta, erro, imaginação conceptual, sono e memória não são aqui apresentados como categorias psicológicas abstractas, mas como estruturas operativas da actividade mental.
Tudo o que surge na mente, desde a cognição mais clara até à ausência aparente de conteúdos, encontra lugar neste enquadramento.
6 Mar 2026
A mente como expressão da consciência.. Y. S. Cap 1 — Temporada 1 | Cap 1 Vers 5
A mente como expressão da consciência.
Quando falamos em modificações da mente (vṛttis), referimo-nos aos diferentes padrões, estádios ou dimensões da consciência.
Tal como um actor que, numa peça, pode representar vários papéis — mendigo, rei, ladrão, sábio, homem ou mulher —, a consciência única manifesta-se em múltiplas formas: estar acordado, sonhar, dormir, pensar, gostar ou não gostar.
É uma só consciência a desempenhar diferentes papéis. Essas expressões ou formas de manifestação são as vṛttis, as modificações mentais.
20 Feb 2026
Sem espiritualidades decorativas. Y. S Cap 1 — Temporada 1 | Cap 1 Vers 3 e 4
Patañjali não começa por vender iluminação.
Começa por descrever a confusão — e só depois a clareza.
Depois de definir o yoga como a cessação das flutuações da mente no célebre sūtra I.2, Patañjali no sutra 1.3 avança imediatamente para a consequência desse processo.
Sem suspense dramático, sem promessas místicas e sem linguagem inflamada, diz-nos simplesmente o que acontece quando a confusão mental abranda.
No sūtra I.4, descreve aquilo que acontece na esmagadora maioria do tempo.
Sem drama, sem condenações morais e sem espiritualidades decorativas, Patañjali limita-se a enunciar um facto:
quando a mente não se aquieta, a consciência confunde-se com o que a mente faz.
Simples. Preciso. E desconfortavelmente verdadeiro.
6 Feb 2026
O Yoga Sūtra de Patañjali Cap 1 — Temporada 1 | Cap 1 Vers 2
Há sutras que parecem simples… até percebermos que são um “mapa inteiro” em quatro palavras.
O Yoga Sūtra I.2 é um desses casos: Patāñjali define aqui o Yoga de forma directa, técnica e absolutamente central para toda a obra.
Citta não é só “pensar”. É o instrumento global de cognição, incluindo:
o que é consciente,
o que é subconsciente,
e o que permanece latente como impressões (saṃskāra)
Em termos do Yoga clássico:
citta é um produto e uma função da prakṛti,
e está sempre sob influência dos três guṇas.
Isto é decisivo: citta não é o “Eu” essencial. É o instrumento.
24 Jan 2026
O Yoga Sūtra de Patañjali Cap 1 — Temporada 1 | Introdução
Um texto hoje mal compreendido
Na atualidade, o Yoga Sūtra é frequentemente visto como um texto difícil, reservado a intelectuais, estudiosos da língua sânscrita ou a uma suposta elite cultural. Para muitos praticantes de yoga, tornou-se quase um livro “sagrado” no sentido distante: respeitado, citado, mas pouco vivido.
Esta perceção é profundamente enganadora.
Na verdade, o Yoga Sūtra nunca foi escrito para deleitar gente culta, nem para servir fins académicos. O seu objetivo original foi exatamente o oposto: tornar o Yoga acessível, transmissível e praticável por qualquer pessoa interessada em compreender a mente e reduzir o sofrimento.
A tradição oral e a escrita tardia
Na civilização indiana antiga, a tradição oral ocupava um lugar central.
Textos fundamentais como os Vedas e o Bhagavad Gītā eram recitados, memorizados e transmitidos de geração em geração muito antes de serem fixados por escrito.
A escrita surge de forma tardia e com uma função claramente secundária: preservar e organizar aquilo que já circulava na memória coletiva.
Por isso, quando falamos de datas associadas ao Yoga Sūtra, referimo-nos apenas ao momento da sua redação, e não à origem do Yoga enquanto tradição prática, que é muito mais antiga.
Esta distinção é essencial para evitar leituras redutoras ou excessivamente historicistas do texto.
23 Jan 2026
O Yoga Sūtra de Patañjali Cap 1 — Temporada 1 | Cap1 Vers 1
Este é o primeiro aforismo dos Yoga Sūtra de Patañjali e tem uma função muito precisa: anunciar o tema e a natureza do texto.
Aqui afirma-se que o assunto é o Yoga e que este será apresentado sob a forma de anuśāsanam — um ensinamento estruturado, transmitido gradualmente, em forma de diretrizes claras. O texto não se propõe como especulação filosófica abstracta, mas como um manual conciso de orientação prática da mente.
O uso deste termo mostra também que Patañjali não apresenta o Yoga como uma criação pessoal. Ele organiza e sistematiza um corpo de conhecimento já existente, herdado da tradição. Ainda assim, não é apenas um compilador: contribui decisivamente para a formulação do Yoga clássico e é tradicionalmente associado ao Kriyā-Yoga. Segundo a tradição indiana, o fundador mítico do Yoga é Hiraṇyagarbha, e Patañjali é aquele que torna este ensinamento acessível e sistemático.
Se desejares ver o video do tema do podcast no youtube segue o link - https://youtu.be/3iNxzP3R-_I?si=Z1_mqIGDiDXULpDq
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