April 23, 2026
Exposição: Face a Face – Rita Magalhães e a Natureza Morta na coleção do MNSR
<p>O podcast “Gineceu, uma História da Arte” em pausa desde Dezembro passado, reabre agora com um episódio especial, em que iremos falar com a artista Rita Magalhães sobre a exposição “Face a Face – Rita Magalhães e a Natureza Morta na coleção do MNSR”, patente no Museu Soares dos Reis até ao próximo dia 18 de Maio.</p><p>Este episódio tem início com uma breve introdução e depois uma conversa; destina-se a todos(as) que quiserem visitar esta exposição com o acompanhamento de uma visita</p><p>guiada por nós.</p><p>O processo que conduziu a esta exposição e teve a minha curadoria, começou a esboçar-se acerca de dois anos ou talvez mais, e teve início com a ideia da “Natureza Morta”, tema intemporal, várias vezes relegado para segundo plano em detrimento da pintura histórica e mitológica, épica, das conquistas, e da virilidade masculina. </p><p>Foi no entanto resgatada em diferentes planos temporais e espaciais, tendo tido o seu apogeu no século XVII e XVIII nos Países Baixos, por vezes associado à figura da “Vanitas”, elemento alegórico da brevidade da existência humana, face aquilo que se consideram as suas vaidades, sejam elas a aparência física e os seus ornamentos, a cobiça, a luxuria, ou a vontade de poder. </p><p>As pintoras flamengas e holandesas que se dedicaram a este tipo de pintura, tema que lhes era permitido, acarinhado e incentivado, nele encontraram um mercado seguro que lhes permitiu viver deste mister: Clara Peeters, Michaelina Waultier, Maria Von Oosterwijck, Rachel Ruysch, Maria Sybilla Merian, mas também as italianas Fede Galizia e Giovanna Garzoni, a portuguesa Josefa d’Óbidos, são apenas algumas das que se conhecem e que encontraram um motivo maior na sua representação. </p><p>Frequentemente vista apenas como um exercício, a natureza-morta ocupou durante séculos, um lugar secundário na tradição pictórica ocidental — à margem da pintura de história, da mitologia e do retrato. </p><p>No século XIX caiu em esquecimento, e foi muitas vezes associada à prática artística feminina, refletindo uma persistente falta de reconhecimento crítico das suas criadoras. Entre flores, frutos e objetos do quotidiano, sobreviveu nas margens das academias, nas oficinas de porcelana e cerâmica, e nas fábricas têxteis, onde o gesto paciente das mãos femininas continuou a renovar o motivo.</p><p>Essa ambiguidade — entre o exercício e a afirmação — travessa as carreiras de muitas artistas. O que por vezes se considerava simples treino técnico tornou-se um território de experimentação silenciosa, onde deixaram marcas subtis mas duradouras, antes de se voltarem para outras formas de expressão que julgavam mais adequadas ao seu tempo.</p><p>Mas não foi só pela mão das mulheres que a natureza-morta prevaleceu. Diversos artistas a praticaram, de Fantin Latour a Chardin, Zurbaran, Baltazar Figueira, bem como a sua filha Josefa d’Óbidos, Van Gogh, Manet, ou Cézanne, já numa antevisão do cubismo, movimento que se apropriou do tema para as suas representações formais atribuindo-lhe uma importância histórica, assim como Morandi, e pontualmente Amadeo, e Eduardo Vianna, nas suas composições cubistas. </p><p>Hoje é retomada pelo olhar criativo de inúmeros artistas contemporâneos de David Hockney a Damien Hirst, e também por Rita Magalhães nesta exposição.</p>