Textos de André Ramos, na voz de Telma Oliveira, com sonorização de Rui Resende. Interessa-me particularmente está algures entre o ensaio intimista, o diário crítico e a crónica confessional. Escreve-se (fala-se) sobre o quotidiano e a história, arquitectura e a cidade, a filosofia e a política, os livros e os filmes e claro, a peste. Tanto quanto raramente, tenta-se a ficção, mas nunca a poesia. Interessa-me particularmente é um exercício de vaidade que nasceu como blog no início de 2020 e agora se faz voz. Episódios breves, irregulares e desregrados.

Interessa-me particularmente
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Textos de André Ramos, na voz de Telma Oliveira, com sonorização de Rui Resende. Interessa-me particularmente está algures entre o ensaio intimista, o diário crítico e a crónica confessional. Escreve-se (fala-se) sobre o quotidiano e a história, arquitectura e a cidade, a filosofia e a política, os livros e os filmes e claro, a peste. Tanto quanto raramente, tenta-se a ficção, mas nunca a poesia. Interessa-me particularmente é um exercício de vaidade que nasceu como blog no início de 2020 e agora se faz voz. Episódios breves, irregulares e desregrados.
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3/31/2021
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May 6, 2021
06.05.2021 Interessa-me particularmente (o aggiornamento e/ou) a decadência
<p>I</p> <p>Há dez anos andava <strong>obstinado pela novidade</strong>. Era o tempo de passar tempo extasiado pelos diplays do quiosque à procura da mais fresca publicação de arquitectura, interiores ou lifestyle. Os filmes (sempre da europa central) passavam-me do prazo de validade se tivessem estriado em sala há mais de três anos. As galerias de arte contemporâneas eram o meu espaço primaz de desejo<strong>. A autoria teria de ser minha contemporânea ou eu não seria um homem do meu tempo. </strong>Na sequência, co-fundei uma loja de design português de autor, onde na sua idiossincrasia, <strong>podia tocar a novidade em pré-produção, antes de partir para o forno.</strong> Como se estes escritos não servissem outro propósito senão a confissão, confesso: <strong>hoje, já pouco disto me interessa particularmente</strong></p> <p>II</p> <p>Nos anos sessenta, década de tudo, o Concílio Vaticano II iluminou-nos com a ideia do aggiornamento: era necessária uma actualização do cânone. Motivo: <strong>sobrevivência do processo de decadência.</strong> O Ocidente, em declínio há dois mil anos, precisava de <strong>decair mais lentamente</strong>. Eis uma definição de aggiornamento: <strong>a demora na decadência</strong> - algo que estou particularmente a precisar. <strong>Ano e meio de peste desactualizou-me.</strong> “Tens de te reinventar”, ouve-se como mantra pós-moderno da volatilidade e da volúpia dos mercados. “Go online or go home”. Prefiro hoje sempre regressar resignado ao tugúrio do filósofo do que embarcar, à vista, pelos caminhos deslumbrados da desumanização do ocidente...</p>

April 14, 2021
12.04.2021 Interessa-me particularmente o atelier (parte um)
<p>I</p> <p>No Domingo passado, o <strong>Manuel Graça Dias faria 68 anos</strong>. Na noite de 25 de Março de 2019 – num tempo em que ainda não pulicava - após saber da sua morte, não consegui dormir e escrevi isto:<br> “Independentemente da veracidade da minha memória, habituei-me a atribuir <strong>a minha chegada à arquitectura</strong> a uns certos programas de Televisão dos anos 90, onde um tipo, um arquitecto, realizava uma <strong>deriva poética</strong> pelas ruas - aquilo que mais tarde nomeei como: <strong>comentário crítico à cidade.</strong><br> A TV, principalmente a RTP2, funcionava na altura, como agora, como um filtro cultural para - usamos novamente a ideia do comentário - <strong>comentar o mundo</strong>, perceber o mundo; apresentou-me um de <strong>projeto de vida</strong> baseada na tal ideia de <strong>deriva na cidade</strong>, habitada por coisas (principalmente) como desenhos, livros ou quadros, objectos que certamente faziam parte de <strong>uma ideia de atelier, aquele espaço-seguro de pensamento onde se regressa.<br> </strong>Esse atelier, ainda antes do curso, e portanto ainda antes da arquitectura, foi sobretudo entendido precocemente como um <strong>espaço de pensamento mais do que um espaço de projecto</strong> - lembro-me agora que o espaço de atelier, dos programas de TV era provavelmente o espaço do Portas, do Teotónio e do Bartolomeu, que o Filipe Oliveira me mostrou algures em 2015, e que era agora o seu atelier, no meio dos papéis e dos estiradores Olaio - a poética do atelier do Bartolomeu Costa Cabral, era em 2015 a mesma dos anos 90.<br> <strong>A memória é etérea e difusa. Não consigo garantir, mais do que por vontade, que era o Graça Dias que subia as escadas daquele prédio lisboeta</strong> (consta que para o atelier dele e do Egas se desce) – mas atribuo-lhe a minha chegada à arquitectura”.</p> <p>II</p> <p>Interessa-me particularmente esta ideia do atelier enquanto “<strong>espaço de pensamento mais do que um espaço de projecto</strong>”. É certamente um interesse por demissão. <strong>Aos 36 ainda não consegui projectar-me um atelier de projecto.</strong> Estes espaços fragmentados onde me movo: um apartamento, duas lojas, uma cave destruturada ao estilo arquivo-funcional e um site (aos quais acrescento a cidade) são lugares competentes para se modelar um atelier de pensamento, mas não um atelier de projecto. <strong>Será ainda cedo para o cumprir?</strong></p> <p>III</p> <p><strong>Qual é a idade certa para um arquitecto começar a ser arquitecto?</strong> Não me lembro de ter ouvido a resposta nos programas do Graça Dias dos anos noventa. Bem, convenhamos: eu já tenho duas obras, ou ainda, eu só tenho duas obras. O Kahn começou aos quarenta. Ainda há tempo! <strong>Ainda o apanhamos! </strong>E tivemos sempre direito a virtuosas desculpas: a crise dos subprimes, a globalização, a falta de gosto generalizada e agora a peste. Quando a peste acabar. <strong>Ai quando a peste acabar, não falto a uma festa!</strong> Ai não que não falto – está-se tão bem em casa. Para um introvertido “sair da escrita para o mundo civil é de um encantador aborrecimento”. A Sílvia que vá e nos encontre clientes, abusando desta técnica milenar da conversa entre copos. Precisamos tanto que regressem os estereótipos do anos noventa!</p> <p>IV</p> <p>O Manuel Graça Dias, ao contrário de mim, era<strong> sedutor, desconcertante e excêntrico.</strong> Caro Manuel, bem sei que deveria encontrar outras referências, mais em conta com o meu chame discreto, mas a bem da verdade, ou melhor, a bem da memória, acho que prefiro mudar de temperamento do que o ídolo. <strong>Vamos a isso?</strong></p>

April 9, 2021
08.01.2021 Interessa-me particularmente esse telhado (e as sapatilhas) parte II
<p>I</p> <p>Caro Alberto Campo Baeza, perdoe-nos o nosso despropósito de ontem. Bem sabemos, que as boas-práticas exigem o melhor rigor, mas sabemos também, que o melhor rigor pode por vezes acompanhar-se de algum aborrecimento e precipitar rápidos e inevitáveis desfechos. BM, arquitecto e investigador universitário do nosso grupo, não acorreu prontamente à minha provocação inicial. Deixou-nos discorrer livremente pela leviandade da observação-instantânea. E aguardou. Quando sentiu sabiamente ser o momento, apresenta-nos uma ferramenta que todos optámos por, sabiamente também (aqui repete-se, veremos porquê) negar: o livro. <a href="https://andre-ramos-ar.blogspot.com/2021/01/08012021-interessa-me-particularmente.html">(ler mais)</a></p>
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