Sobre loucuras e devaneios de mim mesmo.

O insuportável William
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Sobre loucuras e devaneios de mim mesmo.
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🇵🇹
Publishing Since
4/14/2019
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September 2, 2020
#05 - O que nós vemos das coisas são as coisas
O que nós vemos das coisas são as coisas.<br />Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?<br />Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos<br /><br />Se ver e ouvir são ver e ouvir?<br />O essencial é saber ver,<br />Saber ver sem estar a pensar,<br />Saber ver quando se vê,<br />E nem pensar quando se vê,<br />Nem ver quando se pensa<br />Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),<br />Isso exige um estudo profundo,<br />Uma aprendizagem de desaprender<br />E uma sequestração na liberdade daquele convento<br />De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas<br />E as flores as penitentes convictas de um só dia,<br />Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas<br />Nem as flores senão flores,<br />Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.<br /><br />“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 50.<br />“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.

April 20, 2019
#03 PODCAST - A gente se acostuma mas não deveria.
@oinsuportavelwilliam<br />youtube.com/ytwsdk<br /><br />Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria ...<br /><br />A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha pra fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.<br /><br />A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o Jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.<br /><br />A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração.<br /><br />A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.<br /><br />A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.<br /><br />A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar por ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.<br /><br />A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável, à contaminação da água do mar, à lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.<br /><br />A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua o resto do corpo.. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.<br /><br />A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.

April 14, 2019
#01 PODCAST - Na noite terrível, substância natural de todas as noites.
@oinsuportavelwilliam<br />youtube.com/ytwsdk<br /><br />Na noite terrível, substância natural de todas as noites,<br />Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda,<br />Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.<br />Relembro, e uma angústia<br />Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.<br />O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!<br />Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.<br />Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.<br />Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,<br />Na ilusão do espaço e do tempo,<br />Na falsidade do decorrer.<br />Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;<br />O que só agora vejo que deveria ter feito,<br />O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —<br />Isso é que é morto para além de todos os Deuses,<br />Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver...<br />Se em certa altura<br />Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;<br />Se em certo momento<br />Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;<br />Se em certa conversa<br />Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —<br />Se tudo isso tivesse sido assim,<br />Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro<br />Seria insensivelmente levado a ser outro também.<br />Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,<br />Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;<br />Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;<br />Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,<br />Claras, inevitáveis, naturais,<br />A conversa fechada concludentemente,<br />A matéria toda resolvida...<br />Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.<br />O que falhei deveras não tem esperança nenhuma<br />Em sistema metafísico nenhum.<br />Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.<br />Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?<br />Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.<br />Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.<br />Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca<br />Como uma verdade de que não partilho,<br />E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.
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