August 14, 2020
Cântico Negro
<p><strong>Cântico Negro por Odilon Esteves.</strong></p>
<p><br></p>
<p>"Vem por aqui" — dizem-me alguns com olhos doces,</p>
<p>Estendendo-me os braços, e seguros</p>
<p>De que seria bom que eu os ouvisse</p>
<p>Quando me dizem: "vem por aqui!"</p>
<p>Eu olho-os com olhos lassos,</p>
<p>(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)</p>
<p>E cruzo os braços,</p>
<p>E nunca vou por ali...</p>
<p>A minha glória é esta:</p>
<p>Criar desumanidade!</p>
<p>Não acompanhar ninguém.</p>
<p>— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade</p>
<p>Com que rasguei o ventre a minha Mãe.</p>
<p>Não, não vou por aí! Só vou por onde</p>
<p>Me levam meus próprios passos...</p>
<p>Se ao que busco saber nenhum de vós responde,</p>
<p>Por que me repetis: "vem por aqui!"?</p>
<p>Prefiro escorregar nos becos lamacentos,</p>
<p>Redemoinhar aos ventos,</p>
<p>Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,</p>
<p>A ir por aí...</p>
<p>Se vim ao mundo, foi</p>
<p>Só para desflorar florestas virgens,</p>
<p>E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!</p>
<p>O mais que faço não vale nada.</p>
<p>Como, pois, sereis vós</p>
<p>Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem</p>
<p>Para eu derrubar os meus obstáculos?...</p>
<p>Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,</p>
<p>E vós amais o que é fácil!</p>
<p>Eu amo o Longe e a Miragem,</p>
<p>Amo os abismos, as torrentes, os desertos...</p>
<p>Ide! Tendes estradas,</p>
<p>Tendes jardins, tendes canteiros,</p>
<p>Tendes pátrias, tendes tectos,</p>
<p>E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.</p>
<p>Eu tenho a minha Loucura!</p>
<p>Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,</p>
<p>E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...</p>
<p>Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.</p>
<p>Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;</p>
<p>Mas eu, que nunca princípio nem acabo,</p>
<p>Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.</p>
<p>Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!</p>
<p>Ninguém me peça definições!</p>
<p>Ninguém me diga: "vem por aqui"!</p>
<p>A minha vida é um vendaval que se soltou.</p>
<p>É uma onda que se alevantou.</p>
<p>É um átomo a mais que se animou...</p>
<p>Não sei para onde vou,</p>
<p>Não sei para onde vou</p>
<p>- Sei que não vou por aí!</p>
<p><br></p>
<p>Autor: José Régio.</p>
<p>Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=7ZA4mfovFOM">https://www.youtube.com/watch?v=7ZA4mfovFOM</a></p>