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Vitor Bertini

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by Vitor Bertini

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Textos de ficção do autor Vitor Bertini <br/><br/><a href="https://bertini.substack.com?utm_medium=podcast">bertini.substack.com</a>

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May 20, 2022

Velhos elefantes

<p>Nova Délhi, 20 de maio de 2022.</p><p>Olá.</p><p>Em uma sexta-feira de um tenebroso tempo de perigosas previsões, humanos votos de boa leitura e bom fim de semana. </p><p>VELHOS ELEFANTES</p><p>Bahadur, Bahadur Pradesch, é supostamente sexagenário, supostamente cego, supostamente indiano, mas, com certeza, é vidente.</p><p>Bahadur vive isolado em algum lugar no interior de São Paulo, em companhia de dois pequenos saguis que lhe servem de guias. Guias físicos, para atravessar os acidentados caminhos da vida, e guias sensoriais – são eles que recebem as vibrações do porvir e as transmitem ao vidente, supostamente indiano.</p><p>Uma vez por ano, nos dias mágicos que seguem ao Natal, a reclusão de Bahadur é quebrada para receber a visita de um veterano jornalista. Ele vem comemorar os acertos das previsões sobre o ano que sai e recolher, segundo sua pauta, os presságios para o ano que chega. Assim, fiados e confiados na proverbial falta de memória da população, há uma década brindam quedas e ascensões de ditadores, catástrofes naturais, fim de casamentos célebres e toda sorte de costumeiros haveres do dia a dia.</p><p>Comemorações findas, hora das previsões. Ao ser informado que a pauta para o ano seria futebol, Bahadur trocou um improvável olhar com os saguis que - estranha reação –, arrepiados, em transe, deitaram de barriga para os céus, pernas e braços abertos.</p><p>Depois, cabisbaixo, Bahadur começou a caminhar sem rumo. Ante o espanto do amigo repórter, declarou:</p><p>– Como os velhos elefantes na hora de sua morte, preciso voltar para casa. Não temos saída, não vai funcionar; sobre assuntos de futebol as pessoas tem memória.</p><p>Vitor Bertini</p><p>COMPARTILHAR</p><p>Certa ocasião, diante do pedido para que compartilhasse um post qualquer, um dos meus filhos ensinou:– Pai, pedir para compartilhar é como pedir para abraçar terceiros. Não se pede. Se a pessoa quiser, ela abraça.</p><p>TAKE A PEEK</p><p>Em termos planetários, escrever em português e ficar calado é mais ou menos a mesma coisa.</p><p>– Ensaios e anseios crípticos, Paulo Leminski, Coleção Gazeta do Povo, Inventa, 2014</p><p>* Tudo ficção, sem reclames;</p><p>* Leituras em andamento: As relações perigosas, Chardelos de Laclos, Editora Abril e Essa cara não me é estranha e outros poemas, Millôr Fernandes, Boa Companhia;</p><p>* Em breve, quase tudo por aqui vai virar livro. Sugestões?</p><p>* Livro já publicado do locutor que vos escreve: <a target="_blank" href="https://www.amazon.com.br/Abandone-B%C3%A9nya-Contada-Fam%C3%ADlia-Adotou/dp/6581065005/ref=tmm_pap_swatch_0?_encoding=UTF8&#38;qid=1651840764&#38;sr=8-3">Não me abandone - a saga de Bénya Krik, um cão de rua, contada pela família que ele adotou</a>. Já leu?</p> <br/><br/>This is a public episode. If you'd like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit <a href="https://bertini.substack.com/subscribe?utm_medium=podcast&#38;utm_campaign=CTA_2">bertini.substack.com/subscribe</a>

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April 15, 2022

A traição de Odessa

<p>La Paz, 15 de abril de 2022.</p><p>Olá.</p><p>Das muitas vidas que vivi, a do escritor Isaac Bàbel é uma das mais fantásticas. Nasceu, escreveu, amou, casou, teve filhas, guerreou, viajou, voltou, escreveu ainda mais e foi assassinado. Odessa é sua cidade natal e Bénya Krik um de seus personagens. </p><p>Gosto de sua escrita.</p><p>Envolto em parágrafos e frases, bons cafés, queijos e vinhos, um bj, boa leitura e bom fim de semana.</p><p> TEXTOS DE ESPANTO - A TRAIÇÃO DE ODESSA</p><p>Na Av. Roosevelt, em Porto Alegre, uma cidade ao sul do mundo, havia um açougue. Nos fundos do açougue havia um galinheiro. E no galinheiro havia Odessa, a galinha.</p><p>Todas as galinhas que por ali nasciam tinham destino certo: mortas, nuas, arrepiadas e penduradas de pernas para cima dentro do balcão gelado, menos Odessa.</p><p>Odessa era diferente. Bábel, o açougueiro, havia lhe dado o nome em homenagem à sua cidade natal – cidade, ele dizia, onde viveu seu ídolo Bénya Krik, o Rei, e de onde as pessoas partem quando podem. Ninguém sabia quem tinha sido Bénya Krik, nem onde ficava Odessa.</p><p>Certa tarde, a gritaria dos passantes quebrou a rotina da vizinhança e denunciou o segredo dos privilégios de Odessa, a galinha nunca sacrificada: ela havia alçado vôo, conforme o destino de seu nome. </p><p>Do chão do galinheiro, em vôo raso por sobre a cerca, primeiro pousara no telhado da casa que abrigava o açougue e agora, com equilíbrio incerto e olhar assustado, repousava nos fios da companhia de energia elétrica. Dalí, diante de uma platéia de braços erguidos e dedos apontados, um novo e pequeno vôo a levou ao teto do ônibus que passava, provocando um coral de exclamações.</p><p>O açougueiro ainda arrancava seus cabelos, recebia olhares curiosos e chorava sua dor quando o Linha 4, o velho Navegantes, apontou em seu trajeto de retorno trazendo de volta, exibida como quem pensa ser a filha preferida, a galinha Odessa.</p><p>A alegria dos que assistiam à cena deu lugar ao espanto quando o dono do açougue, abraçando a galinha que sabia voar, cortou-lhe o pescoço.</p><p>O bairro, naquele dia, começou a saber como era Bénya Krik, o ídolo do açougueiro Bábel.</p><p>Vitor Bertini</p><p>TAKE A PEEK</p><p>Foi o acaso de cadeiras vizinhas em uma palestra sobre pintores belgas quem aproximou os colegas do curso de pintura. A identidade no espanto com o surrealismo e o entusiasmo com os mistérios das pinturas de Magritte, mais o surpreendente fato de o aluno mais jovem dispor de um ateliê, foram determinantes para a visita de estudos e conversas agendadas para o dia seguinte.</p><p>Não me abandone, a saga de Bénya Krik, um cão de rua, contada pela família que ele adotou, Vitor Bertini, Editora Esquina do Lombas.</p><p>.</p><p></p><p></p> <br/><br/>This is a public episode. If you'd like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit <a href="https://bertini.substack.com/subscribe?utm_medium=podcast&#38;utm_campaign=CTA_2">bertini.substack.com/subscribe</a>

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March 25, 2022

Olita

<p>Odessa, 25 de março de 2022.</p><p>Saí para caçar raios, terminei namorando vaga-lumes.</p><p>Entre páginas, parágrafos, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.</p><p>OLITA</p><p>– A senhora me dá licença?</p><p>Sentada junto à janela, instalada como quem sabe que vai até o fim da linha, Olita murmurou alguma concordância, puxou para o colo a sacola que estava entre suas pernas, aproximou-se da lataria do ônibus, olhou para conferir o espaço que livrara, e lembrou do tempo em que não ocupava quase dois assentos.</p><p>Reacomodada, suspirou fundo, abraçou a sacola junto ao peito, sentiu o trabalho do dia, o mormaço da tarde e os olhos pesados. Embalada pelo sacolejar da viagem, dormiu sentada.</p><p>Dormiu e sonhou. No sonho, ela tinha o tamanho do colo de seu Vôswaldo, um cão chamado Dunga e uma vaga sensação de segurança.</p><p>Antigamente, era para os braços de Seu Oswaldo que a menina Olita corria, buscando refúgio, sempre que o sapo reaparecia e ela acordava assustada - “é só um sonho ruim, Lita; só um sonho ruim”, repetia o avô, acolhendo e beijando a neta.</p><p>No pesadelo, um sapo abocanhava a cabeça de um passarinho e, por isto, era morto a pauladas. Apanhava até morrer. Morriam os dois. Acordada, chorando, acarinhada pelo avô, a menina Lita dizia que quando fechava os olhos ainda ouvia o barulho do pau batendo nas costas do sapo, e não queria mais dormir.</p><p>– Lita, a vida é assim. Com o tempo, é você quem vai assustar os sapos – dizia Vôswaldo, embalando a neta encolhida em seu colo.</p><p>No levanta e senta de passageiros ao seu lado, Olita acordou apenas o suficiente para ver uma distraída colegial de mochila no colo, rosto e corpo de menina, e lembrar que Juanita, sua única filha com o falecido Carlinhos, também devia estar a caminho de casa. Voltando a dormitar, sorriu.</p><p>Assim seguiu a viagem, entre solavancos, lembranças e sonhos, até que uma explicação gritada acordou a passageira:</p><p>– Pessoal! Pessoal, estou com um defeito no carro. Quebrou. Fim da jornada. Por favor, desçam e aguardem o próximo veículo - a passagem será liberada!</p><p>Ainda zonza, mão firme na sacola, Olita abriu espaço na fila que se formava no corredor e desceu os degraus do ônibus só pensando nos problemas que o atraso lhe causaria: tinha que lavar a louça de ontem, fazer o jantar de hoje e preparar o almoço de amanhã - Juanita haveria de ter varrido a casa. Além das tarefas, o capítulo da novela que não podia perder.  </p><p>Decidida a ser uma das primeiras a embarcar na baldeação, a dona da sacola tomou a dianteira do grupo de passageiros em direção ao ponto mais próximo, só para surpreender-se em frente à  Paróquia de São Benedito.</p><p>A pressa de ir para casa colidiu com a esperança de um pouco de serenidade. Fragilizada pelos tempos difíceis que atravessava com Sérgio, seu ex-companheiro que voltara a beber e a procurá-la, Olita decide entrar na igreja. Precisava falar com Deus.</p><p>As orações, o silêncio reparador, a contrição: tudo contribuiu para que Olita sentisse a alma leve e se deixasse ficar.</p><p>Depois, serena, foi para o ponto de embarque, sem importar-se com o horário ou com o fato de pagar um novo bilhete.</p><p>O restante do percurso pareceu mais rápido e agradável do que nunca. Até os trezentos metros de chão batido entre o fim da linha e sua casa pareceram mais curtos e, quem diria, capazes de refletir os primeiros raios da lua que nascia.</p><p>A situação só mudou depois que a alma leve que carregava uma sacola dobrou a única esquina do caminho cheio de eucaliptos e avistou, estacionada na frente de sua casa, a velha e batida caminhonete que pertencia a Sérgio.</p><p>Seus passos acompanharam a aceleração de seus batimentos cardíacos, até virarem uma corrida. Ao lado da porta entreaberta, encostada na parede, estava a vassoura que a mãe da Juanita pegou sem pensar.</p><p>Debruçado sobre o colo desnudo da então enteada, Sérgio começou a apanhar até quebrar o cabo da vassoura com que Olita, em silêncio, lágrimas lavando o rosto, batia e batia. Batia como batia roupa antigamente; batia ouvindo o barulho nas costas do maldito sapo de seus pesadelos. Bateu com o que restou do cabo da vassoura até que Sérgio, cambaleando, conseguiu fugir, dirigindo sua caminhonete.</p><p>Depois, chamou a filha, enxugaram suas lágrimas e foram assistir, de mãos dadas e em silêncio, o fim da novela.</p><p>Na manhã seguinte, indo para o trabalho, Olita desceu bem antes de seu destino final, atravessou a rua e entrou na Igreja de São Benedito. Ela precisava falar com Deus.</p><p>Vitor Bertini</p><p>* Este texto é uma ficção. Qualquer semelhança com a vida real é, simplesmente, muito triste;</p><p>* Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.</p><p>The difference between the right word and the almost right word is the difference between lightning and a lightning bug.</p><p><strong>Mark Twain</strong></p><p>.</p><p></p> <br/><br/>This is a public episode. 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